Navegando com Tchékhov

livro tchekhov a minha mulherlivro tchekhov o duelo

Dois esplêndidos contos russos…

O primeiro sobre as desventuras de um casal da aristocracia, ele rico e idoso e ela jovem, linda e pobre.

Desentendimentos entre marido e mulher em torno de como devia ser feita ajuda alimentar às populações da vizinhança, que estavam a morrer de fome e de frio, transformam a vida do casal num inferno.

Muito se aprende neste conto sobre as armadilhas da caridade…

O segundo livro fala dos grandes temas filosóficos que invadiram a Rússia no fim do século XIX. Um jovem cientista odeia um funcionário liberal e individualista.

O primeiro defende o primado da Razão. Em nome dela advoga que que sejam exterminados da superfície da Terra todos aqueles que não gostem de trabalhar, sejam indigentes e viciados. Atribui essas características ao funcionário. Faz lembrar as ideias nazis.

O funcionário, por seu turno, julga o seu opositor, acusando-o de arrogante e hipócrita, pois é apologista do rigor da razão em nome de coisas abstratas como “a Humanidade” ou “as gerações futuras”.

É um texto impregnado de referências ao darwinismo e às ideias germânicas em circulação em 1891 (data em que o livro foi publicado).

Curiosamente acaba com uma frase que é uma dupla metáfora:

O narrador descreve o barco a remos que transporta o cientista, enfrentando ondas alterosas. Quando embate na onda o barco recua ligeiramente mas depois, devido à pertinácia dos remadores avança e ganha terreno. Tchékhov, em vez de comparar o movimento do barco com “a procura da verde” escreve:

tchekhov na procura da verdade

Fez-me lembrar o título de um livro de Lenine! Mas a conquista do Palácio de Inverno pelos Bolcheviques foi 17 anos depois da publicação de O Duelo. E Lenine dá dois passos atrás e um à frente (portanto não progride, recua!).

lenine

Vamos lá a ver o que dirão os meus colegas do Clube de Leitura, quando formos discutir O Duelo…

Anúncios

2 comentários a “Navegando com Tchékhov”

  1. 2017.05.27
    Anton Tchekhov, “a minha mulher”
    Comentário
    Preambulo
    Nunca me dediquei a este tipo de atividade, escrever algo sobre um livro que tivesse lido. Depois de pensar um pouco sobre o que me faria sentido escrever e, sobretudo, “publicar” para os meus irmãos, conclui que abordar o livro como metáfora seria o que mais sentido faria.
    Excluí, portanto, outras hipóteses de abordagem escrita sobre o livro como sejam o resumo e a resenha, aos quais ainda me poderia abalançar, mas também a critica histórica, literária para as quais não tenho a mínima competência.
    Embora a abordagem do livro, enquanto metáfora, seja uma forma de “achismo”, do qual estamos todos tão saturados pela quantidade de “achistas” profissionais que nos incomodam diariamente, penso que a abordagem do livro, enquanto metáfora, nos permitirá continuarmos a pensar e discutir sobre os assuntos do livro, durante algum tempo, evitando assim o “toca e foge” que atualmente caracteriza os debates, nos quais cada participante “despeja” dois ou três “lugares comuns” sobre o assunto em discussão e, de imediato, passa ao tema seguinte sem que qualquer valor seja acrescentado. No fim fica um monte de opiniões conclusivas um “lixo de palavras”.
    O impacto do livro
    Com esta sugestão de leitura feita pelo Manuel voltei a ler literatura, coisa que não fazia há muito, aliás nunca foi o meu forte.
    Nos últimos anos tenho sobretudo lido temas profissionais, filosofia, ensaios sobre assuntos específicos, filosofia da ciência e do direito, escritos de místicos e pouco mais.
    Gostei imenso de ler “a minha mulher” sobretudo porque senti voltar aquela antiga excitação de devorar e ser devorado pela história do livro.
    Os russos são sempre os Russos.
    A capacidade de produzir imagens que esta escrita tem é notável, as personagens aparecem-nos e deambulam, os espaços abrem-se e povoam-se de objectos e parece que estamos a ver um filme e deixamo-nos ir.
    Reparo agora que esta força, capaz de levantar as personagens do papel e colocá-las a circular na história, deve estar, de alguma forma, relacionada com uma violência estética talvez vinda da violência física daqueles povos, a violência da natureza, dos elementos, a violência dos sentimentos e emoções. É como se as palavras tivessem ossos e músculos e acordassem à medida que vão sendo lidas e tudo se anima.
    Metáfora 1. Compaixão pela desgraça alheia
    Personagens principais: Pavel (Anndreiavitch) a mulher Natália (Gavrilovna) o amigo Ivan (Ivanitch) e Solove o médico.
    Definição de Compaixão (Porto Editora) – Dor que nos causa o mal alheio.
    Parece-me que estas personagens caraterizam as diferentes modalidades com que, cada um de nós lida, em diferentes momentos, com a dor dos outros.
    Tchekhov, ao que me parece, sem o referir, trata da complexa questão “do egoísmo e da caridade”.
    Todas as personagens sentem dor moral perante a miséria e sofrimento extremo da população de uma aldeia vizinha.
    Todas elas, as personagens, sentem culpa (dor autoinfligida) pelo fato de terem tanto bem-estar nas suas vidas enquanto que, aquela população da aldeia, tem tanto mal-estar.
    As personagens sentem essa dor de modos diferentes porque cada uma delas tem uma distância emocional diferente à dor do outro.
    Cada um de nós, dependendo da pessoa que sofre e das diferentes circunstancias, também tem distancias emocionais diferentes face à dor do outro, sentindo dor moral e culpa diferentes conforme essa distancia, em cada caso.
    O que é que as personagens fazem àqueles que sofrem? Farão coisas diferentes, conforme a sua condição pessoal e personalidade, determinarem distanciamentos morais diferentes face ao sofrimento alheio.
    Coloca-se aqui uma questão delicada; é que todos eles irão ter posições e ações diferentes em relação aos miseráveis, mas sempre satisfazendo em paralelo uma necessidade pessoal.
    Cá está a questão da caridade e egoísmo.
    Ivan sente uma vaga culpa, mas como considera o sofrimento dos outros como uma fatalidade inerente à própria natureza das coisas, conforta a alma com teorias e boas intenções e nada faz.
    Sobole, o médico, ganha a vida e retira algum proveito extra com o próprio socorro à miséria e, distanciando-se dela, come e dorme à farta nos intervalos do trabalho na casa de Ivan.
    Natália, só e entediada, encontra o sentido para a vida a que ardentemente aspirava, através da organização do socorro às vítimas, sem se preocupar minimamente com a eficiência da ação.
    Pavel quer agir, mas mede repetidamente os custos pessoais da campanha de socorro desejando controlar as operações e retirar benefício prolongado através do reforço da sua notoriedade social de poderoso e benemérito.
    Mais acima referi que era uma questão delicada o facto de todos retirarem proveitos pessoais com o socorro aos miseráveis.
    Mas pergunto eu, esse é um problema? Esse problema existe?
    Este só é um problema se pensarmos na beneficência em termos Idealizados, isto é, numa beneficência que só existe no mundo das ideias e não no mundo dos factos.
    Este modo idealizado é que permite a muita gente nenhum socorro dar aos necessitados de facto, mas aplacar a sua culpa através da realização de bons discursos com ideias. Factos para um lado, ideias para o outro mas nada de as ideias serem consequentes com os factos.
    Por exemplo Ivan com o seu discurso (ideias) era visto como competente para o combate à miséria, mas, in factum, nada fez. Só ideias.
    Já Natália ainda que atabalhoadamente fez algo, prestou socorro efetivo, tal como Sobole que de igual modo forneceu socorro de facto. Ambos retiraram algo para si mas também deram. Foram imperfeitamente humanos, falharam a perfeição.
    Mas, no mundo dos factos, é legítimo conceber o “dar” desinserido da “troca”?
    Metáfora 2.
    Pavel homem experiente e vivido, casa com Natália, jovem inexperiente e ingénua. No livro já os encontramos divorciados, sem amor, um a viver no andar de cima, Pavel e outro no andar térreo, Natália.
    A história da relação entre estas personagens, que acontece dentro do livro, pareceu-me ser uma metáfora das vicissitudes da relação entre “o Novo”, Natália, que quer irromper e aceder à Vida Plena e “o Velho”, Pavel, que quer permanecer, não perder a “Vida Plena”.
    É a tragédia do Velho que não abdica de estar na linha da frente da Vida Plena e, sem força para o combate no Real tenta impedir ser substituído pelo Novo, desvalorizando a qualidade das suas competências e tentando subtê-lo com ideias e conceitos velhos.
    Luta da sucessão das gerações.
    Claro que as ideias e conceitos velhos são sábios, só que incompreensíveis e inaceitáveis para o Novo, porque o Novo, sendo Novo, não sabe e não pode viver através de ideias e conceitos velhos.
    O Novo é impulsivo, incompleto, inconsciente, inconstante, sedento de vida e neste movimento de força imparável é totalmente intolerante à sapiência e bondade do velho que tendo acumulado sapiência no passado constata, desesperado, que transporta, no presente um bilhete já caducado para o futuro.
    Para mim foi impressionante observar a acutilância de Tchekhov ao atribuir a Pavel a sabedoria de estabelecer o compromisso entre Viver e Morrer e entre Viver e deixar Viver, escolhendo a Melhor Morte possível;
    enquanto “Velho para a Morte”, renunciando a bens materiais e convicções não partilháveis, desobstruindo o caminho ao Novo, sua mulher Natália, deixando-a viver.
    enquanto “Velho para a Vida”, proporcionando a si próprio um prazo para Viver em Pleno o seu sossego durante algum tempo.
    E nisso renunciou a tudo, devagarinho e, entre o momento da renúncia e o momento em que seria pobre como os pobres, e portanto sem já nada ter para dar, foi gozando a Vida em pleno, fazendo as suas leituras e ensaios sobre os caminhos de ferro, sem que a culpa o chateasse, nem a sociedade, nem os miseráveis, nem a mulher.
    Moral da história – colherada quase final
    Aos puros, que criticam quem dá a quem precisa e em simultâneo associam um interesse pessoal.
    A esses puros, que pregam a caridade perfeita, imaculada, sem mancha, sugiro que procedam do seguinte modo quando encontrarem o primeiro pobre de mão estendida.
    Dispam-se e dispam o pobre.
    Vistam a roupa do pobre, entreguem-lhe a carteira e chaves do carro e da casa.
    Se o pobre não colaborar encham-no de porrada até ele ceder. Serão perdoados.
    Mandem uma carta de despedimento para o emprego.
    e…não esquecer, enviem um SMS ao São Pedro a renunciar ao lugar do céu, previsto para estes casos.
    Depois entreguem o telemóvel, ao agora rico.
    Depois desapareçam na multidão. Perfeito.
    2º Moral da história – Só é perfeito quem não tem nada para dar porque não tem nada para si.
    Xiça penico. É mesmo lindo!
    3º Moral da história – Se estires com fome é melhor encontrares um imperfeito do que um perfeito.
    Cruel.
    A pergunta de investigação
    Quero ser um perfeito imperfeito ou um imperfeito perfeito?

    Gostar

    1. Li o texto cuidado que ele escreveu. Foi como se tivesse lido o livro mais uma vez porque recordei pormenores que tinha esquecido entretanto.
      Mas (há sempre um “mas”) tenho algo a acrescentar que penso representar pelo menos 30% da mensagem que livro contém:
      O esposo diz ao amigo que não compreende a rejeição da esposa aos argumentos por ele esgrimidos quanto ao controlo de dinheiros.
      É de facto incompreensível que argumentação tão justa não encontre eco numa mulher culta, a pesar de pobre! E não se entende como ela não percebe que essa falta de controlo pode beneficiar oportunistas que desviam recursos destinados aos pobres.
      A minha explicação é simples:
      A dinâmica criada nos chás de caridade no rés do chão de casa do casal constituem uma forma de afirmação da esposa. Antes desses chás ela sentia-se relegada para segundo plano no aspecto social, relativamente ao marido.
      Agora está contente com o que significa socialmente conviver com pessoas importantes da região. A manutenção desse status impede que aceite qualquer crítica que o ponha em causa. Doa a quem doer. Mesmo que doa aos pobres!
      Acresce que a má vontade antiga que ela tem para com o marido, que acusa de paternalista, violento, insensível à questão social, dá lhe um alibi perfeito e oportunista para rejeitar as críticas mais justas.
      Ela prefere vir a perder o estatuto social a que chegou a abdicar desse estatuto enquanto o tem.
      Nos dias de hoje encontramos muitas pessoas assim!

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s