Dar esmola.

O ato de “dar esmola” é quase sempre uma agressão, pedir esmola é quase sempre um vício. Esta asserção parece uma provocação! Mas não é! explico:

O acto de “dar esmola” foi, desde a antiguidade e até muito recentemente, um ato louvável. Em PortugOPI-002.epsal, até meados de 1960, foi a forma que a sociedade encontrou de não deixar morrer os cidadãos que não tinham meios de subsistência. A caridade.

Nunca esquecerei as dezenas de pobres que se juntavam em fila indiana à porta da minha avó para receberem a esmola de cada sábado. A benemérita sentava-se na cozinha, com um monte de moedas de tostão encima da mesa, e ia chamando uma a uma as mulheres que faziam fila lá fora (eram mulheres que se vestiam quase sempre de preto a traziam um lenço preto na cabeça). Cada uma recebia segundo as suas necessidades, e a minha avó tinha gravada na memória a cada utente a esmola que lhe correspondia.

Mas havia exceções; “Hoje não levas um cruzado (4 tostões) porque deste uma sova na tua menina, contenta-te com 2 tostões”. E havia as que não levavam nada: “tenha paciência…”.

Na vila (a cidade de minha avó não passava de uma vila) toda agente sabia aonde moravam as famílias abastadas e ao mesmo tempo caridosas. Todo o altruísmo encerra um egoísmo…

A Igreja não ficava atrás. À porta que dava acesso à casa do padre lá estavam elas também… cabia a governanta, a nobre tarefa de dar o bodo aos pobres.

Era um pacto social.

Deixou de ser quando o Estado assumiu a responsabilidade de não deixar morrer os pobres. Quando o Estado reconheceu que o comunismo podia alastrar por cá e resolveu distribuir democraticamente a responsabilidade de financiar a subsistência dos pobres. IRS, IVA, TSU, etc. todos pagam por tabela, os ricos e os menos ricos…

Nos tempos que correm, portanto, já não se justifica dar esmola. Por sistema ou por hábito. Quem o faz atenta contra a ordem social, abrindo caminho a que viciados em receber uns trocos acima do Rendimento Social de Inserção, andem de mão estendida ao turista ou ao cidadão que aparente ter recursos e ser piedoso, normalmente senhoras acabadas de sair da missa, que vêm cogitando quão bons eram os tempos em que havia pobres a pedir. Ao menos nesses tempos podiam os crentes aparecer junto do Senhor carregados de medalhas de caridade. Estava-lhes garantida a vida eterna.

Quem dá esmola, fá-lo para saborear aquele momento ímpar em que diz para consigo: “neste gesto eu estou por cima, e tu por baixo”. E esquece que dar esmola, em vez de dar a cana de pesca, é uma forma de perpetuar o habito de pedir, uma forma de aumentar a pobreza. É, portanto uma agressão.

É como a Ajuda Alimentar Internacional que, a pedido do Sr. Guterres, vai socorrer uns milhares de desgraçados que estão a morrer de fome na Somália. Vai um avião de carga com toneladas de farinha e de leite em pó, gastando milhões em “ajuda”. Por trás da cortina assina um acordo de exploração de umas minas de bauxite, com o governo lá do sítio. As pessoas não morrem. Pelo contrário. Têm bebés, e dentro de dois anos no máximo está de novo o Sr. Guterres a clamar por “Ajuda!”. É que parte da farinha foi desviada do campo de concentração e invadiu o mercado o país, fazendo baixar os preços da alimentação. Assim se lançam na miséria mais uns milhares de agricultores que, nesse país, não conseguem produzir farinha ao preço da que é comercializada no mercado negro.

Mas eu também as dou, mas sempre em atos de jactância: Gosto da cara do pobre e zás, toma lá uma moeda! É assim parecido com as vezes em que cumprimento pessoas na rua sem as conhecer. Gosto
da cara delas e zás, toma lá um “Bom Dia”!

 

 

 

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