Descarbonar Portugal em 1/01/2020

carro fumo ambiente

Segundo a Portdata.pt venderam-se em Portugal, em  2018, gasóleo e gasolina rodoviários (excluindo GPL e Gasóleo agrícola)
5,518E9 Kg
A combustão de 1 Kg de gasolina produz 10,4E6 calorias.
1 caloria vale, no S.I.    1,163E-6 KW.h
Portanto, em 2018, em Portugal gastaram-se-se 5,518E9x10,4E6=57,39E15 calorias
Convertendo para o S.I.  57,39E15x1,163E-6=66,74E9 KWh, ou seja 66.740 GWh –> Energia rodoviária total de 2018.
Admitindo que a eficiência térmica+mecânica dos veículos de combustão interna é de 60%, este número baixa para 40.044 GWh, que seria a energia elétrica suficiente para alimentar uma frota igual mas movida a eletricidade e com uma eficiência elétrica e mecânica de 100%.
Voltando à Portdata: a produção total de energia elétrica limpa, em Portugal,  em 2018, foi de
Hidroeletrica               13.600 GWh
Fotovoltaica                  1.000 GWh
Eólica                          12.900 GWl
Total                             37.500 GWh
 
Isto é: toda a eletricidade “limpa” hoje produzida em Portugal não chega para carregar as baterias dos camiões e automóveis se todos fossem convertidos para elétricos.
Este número (37.500) é uma média. A capacidade de produção em cada dia depende das condições ambientais (quantidade de chuva, sol e vento, respetivamente).
E esse é um dos problemas principais da “energia verde”; a dificuldade que existe, em  adaptar a energia verde que pode ser produzida em dado momento às necessidades de energia elétrica que os consumidores estão a necessitar nesse mesmo momento. As habitações, as fábricas, os transportes… Há portanto um custo associado à resolução deste problema, que muitas vezes se salda na necessidade de importar energia da rede internacional, que é muito cara (quem procura paga mais) ou necessidade de exportar para essa mesma rede, que é desvantajoso (quem oferece sujeita-se a vender a preços menores).
Mas ter energia elétrica verde não chega. É necessário que seja de qualidade. Ligar um parque eólico à rede de alta tensão, para aí injetar energia captada do vento, produz sempre perturbações na qualidade elétrica da rede.
  • Frequência;
  • Valor eficaz da tensão;
  • Cavas de tensão;
  • Sobretensões (swells);
  • Tremulação (flicker);
  • Desequilíbrio do sistema trifásico de tensões;
  • Distorção harmónica.

A implementação das correções necessárias são mais um custo a considerar na aposta “verde”.

E há o problema fiscal. O Estado cobra €0,60 por cada litro de combustível rodoviário ou seja 5,2E9x0.6= 3,1 mil milhões de euros. É uma taxa de imposto das maiores da Europa, provavelmente porque Portugal é um país que tem uma das mais altas taxas de utilização de energia renováveis da Europa. À medida que os combustíveis fósseis iam sendo substituídos por energias renováveis, a receita ISP (Imposto Sobre Produtos Petrolíferos) ia diminuindo, havendo necessidade de compensar essa diminuição com aumento do imposto. Quem pagou a descarbonação foi o automobilista…

Esta receita do Estado tem que passar a ser cobrada na energia dos veículos elétricos. Porém será muito difícil diferenciar tarifas para a energia elétrica rodoviária, e para outros tipos de utilização, pois é muito fácil pôr carregadores de baterias nas vivendas, garagens de condomínios, etc. longe dos olhares dos fiscais. É provável que esta transferência de imposto se faça para a generalidade da eletricidade. O início dessa transferência ocorreu hoje (01/01/2020), com a diminuição do IVA para quem consuma com contratos de baixa potência, 3,45 KVA (3.450 W). Com esta potência não é possível carregar a bateria de um carro numa noite, por mais pequeno que ele seja. No futuro, os “ricos” que paguem a crise (a classe média).

É caso para evocar o célebre título “Vícios Privados, Públicas Virtudes”. E eu a pensar que o desígnio político de diminuir o custo da eletricidade se destinava a aumentar o poder de compra dos portugueses. E mais a palhaçada de ir pedir a Bruxelas autorização para implementar esta medida. Agora parece-me óbvio que se tratou de uma medida-cobaia para estudar em Portugal a melhor forma de transitar para energia “verde”. Se resultar, embandeira-se em arco que mais uma vez Portugal esteve na frente das decisões corretas, numa área que vai tocar num futuro próximo a outros países da Europa…

Tudo se resolve à císes da Europa…

Tudo se resolve à custa de novos e sofisticados equipamentos de regulação e correção.

Em resumo;

  • Vêm aí grandes negócios se quisermos mudar o paradigma atual da produção / consumo de energia.
  • Vem aí diminuição acentuada da ocorrência de doenças pulmonares e outras associadas à poluição atmosférica. SOBRETUDO NAS GRANDES CIDADES.
  • A energia elétrica passará a ter preços muito superiores aos atuais. Isso é bom porque irá reduzir o consumo , isto é, irá atuar no primeiro e principal dos três “R”s do Ambiente (Reduzir, Reutilizar, Reciclar). Ou seja, com preços muito altos as pessoas vão pensar duas vezes antes de carregar no interruptor (da televisão, da máquina de lavar, do ar condicionado, do automóvel).
  • Os principais afetados com a transferência para “energia verde” serão os indivíduos da classe média, pois são os que estão habituados a consumos elevados de energia; como escolher escolas para as crianças a pensar em levá-las e trazê-las de carro, aquecer as casas acima dos padrões de conforto mínimo, ir de férias ou fins-de-semana para muito longe de casa, dar preferência a restaurantes ou táxis com ar condicionado, etc.).
  • A consequência anterior fará deslocar os votos dos eleitores da classe média para os partidos negacionistas ou para partidos que, embora reconheçam que existem alterações climáticas, não as atribuem às emissões de gases provenientes da queima de combustíveis fósseis. ISSO PODE SER A PIOR DAS CONSEQUÊNCIAS… Partidos que, uma vez no governo, vão boicotar medidas de descarbonação decididas por governos anteriores.
  • E, uma vez que a propaganda é quem mais ordena, aparecerão muitas mais Gretas Thunberg com discursos cada vez mais catastróficos, com a intenção de induzir os consumidores a aceitarem os aumentos de preços da energia.

Espero estar cá em 2021, para comparar o que aconteceu com os “palpites” que aqui deixo.

Dois terços da energia consumida em Portugal vêm do petróleo e do gás

2 opiniões sobre “Descarbonar Portugal em 1/01/2020”

  1. Manel, Bom Ano Novo para vocês. Estive a ler o texto e fiquei admirada com todas essas contas, não me digas que foste tu que fizeste tudo isso. Que trabalhão! Acho este assunto muito complicado, não é só técnico , principalmente ‘e político. Depois falamos sobre isto. Bjs, Dinha

    toufeito escreveu em qua, 1/01/2020 às 16:24 :

    > Manuel Vicente Galvão posted: ” Segundo a Portdata.pt venderam-se em > Portugal, em 2018, gasóleo e gasolina rodoviários (excluindo GPL e Gasóleo > agrícola) 5,518E9 Kg A combustão de 1 Kg de gasolina produz 10,4E6 > calorias. 1 caloria vale, no S.I. 1,163E-6 KW.h Portanto, e” >

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  2. Os nossos jornalistas são muito fraquinhos. Neste tipo de assunto o que os consumidores apreciam mais é saberem as implicações que as alterações de política podem trazer para o seu dia a dia.
    Ninguém deseja mal ao planeta mas também ninguém está disposto a ceder de mão beijada os direitos que adquiriu com tanto trabalho e sofrimento.
    Veja-se os coletes amarelos…
    Solidariedade uma ova!
    Para es empresas é muito mais fácil aderirem pois têm sempre hipótese de fazer refletir o acréscimo de custos no preço de venda…

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