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1 – Espanta Fantasmas

Em 1978 eu morava na Reboleira, num 9º andar. O prédio tinha 12 andares, com 4 apartamentos T1 por piso. Apartamentos com letras A, B, C e D. O meu era o B.

A minha mulher e eu dormíamos no quarto único da casa. Estávamos juntos há mais de dois anos e eramos felizes como tantos casais que se tinham libertado dos preconceitos na casa paterna, e viviam alegremente a sua recente liberdade.

Quando estávamos próximo do terceiro aniversário após termos juntado os trapinhos, aconteceu uma coisa insólita; cerca da meia-noite, quando já dormíamos o primeiro sono, acordámos sobressaltados com um estrondo mesmo por cima da nossa cabeça. Algo tinha caído no chão do quarto por cima do nosso. Pusemo-nos os dois à escuta a tentar perceber o que se passava, mas só ouvimos uma risada ligeira, de mulher, seguida de um silêncio total.

Nestes prédios altos, que têm quase 50 apartamentos, os moradores não se conhecem uns aos outros. Porém, os encontros furtuitos no elevador proporcionam que cada um crie, por exemplo, a memória da senhora de bengala que sai antes de nós, no 8º andar, ou do casal de jovens que, a subir, marca o botão do 9º andar.

Eu já tinha esquecido o barulho que me acordara quando, dias depois, o caso se repetiu, BOOM, à meia-noite. Fiquei furioso, como ficam todos os homens com menos de 50 anos quando se sentem agredidos por um desconhecido, e disse à minha mulher que, se voltasse a acontecer, eu ia lá cima enfrentar o morador do 10º – B e exigir que acabasse com a brincadeira. Parece o barulho de um tacão a bater com força no soalho. Deixa lá, respondeu ela, não é um problema tão grande que justifique arranjar inimizades com a vizinhança.

De facto, o tempo que mediou entre os dois barulhos fora de 15 dias aproximadamente. Apontei na minha agenda o dia e a hora do último ruído.

Dezasseis dias depois, era domingo, voltámos a ouvir o ruído, à meia noite.

Furioso, levantei-me, enfiei umas chinelas havaianas e fui, escada acima, bater à porta do agressor, em pijama. Dei três campainhadas que mais me pareceram a maneira que tenho de tocar à porta de meus avós. Porém, desta vez o número três não significou cumplicidade com os velhotes, mas sim irritação com os vizinhos, e agressividade, pensei.

Ninguém veio à porta. Toquei de novo e, passados uns longos 15 segundos ouvi uma “restolhada” lá dentro. O meu coração disparou. Cautela Manel, não faças nenhum disparate.

Só nesse momento me tinha apercebido que a porta à minha frente podia abrir-se e aparecer um matulão com um taco de basebol, perguntando: “o que deseja, o senhor?”.

Felizmente foi uma rapariga muito jovem que abriu a porta. Trajava roupão e chinelas com pompom branco, que pareciam acabadas de chegar da loja.

Perguntou-me “o que deseja, o senhor?”.

Não pude evitar um sorriso, pelo contraste que se verificou entre o meu temor e a realidade. A realidade, por vezes, é bem mais agradável do que a nossa imaginação consegue pintá-la.

Recompus-me do sorriso, tentando fazer uma cara de mauzão, e disse-lhe: Minha senhora, vim cá a cima pedir-lhe que parem com os barulhos que fazem à meia-noite, de quinze em quinze dias. Tanto a minha mulher como eu acordamos sobressaltados. Os senhores não têm o direito de nos provocar esse incómodo! Exclamei, com um tom de voz já um pouco alterado.

Nesse instante uma cabeça de homem assomou por trás do ombro da rapariga e verifiquei que o marido dela (seriam casados?) tinha uns quinze centímetros a mais de altura que eu. Isto é, devia ter quase 190 cm de altura.

Curiosamente a minha excitação não abrandou. Já ia recomeçar com nova argumentação quando a jovem disse sorrindo; pedimos muita desculpa, não vai voltar a acontecer.

Desci os dois laces de escadas e fui deitar-me. Quando entrei no quarto, a minha mulher acendeu a luz. É para ver se trazes algum olho à Belenenses, disse sorrindo. Pelos vistos foste bem recebido!

Sim, fui bem recebido pelos estúpidos. Logo os dois. A Maitê e o Globetrotter. Ela parece irmã gémea da atriz brasileira e ele deve ser atleta de basquete. E virei-me de lado para dormir. Mas não consegui. Os meus sentidos ainda não se tinham acalmado. Na minha frente via o rosto de Maitê, o meu cérebro recordava o perfume que minhas narinas aspiraram nos poucos segundos que estivemos a sós. Que parvoíce, pensei. Adormeci.

Na manhã seguinte tive que suportar uma mini cena de ciúmes de Luísa, a minha mulher; então, sonhaste com a Maitê? Sim, sonhei que tínhamos fugido para as Caraíbas, respondi, meio a sério, meio a brincar.

Na época Luísa trabalhava num balcão do Serviço de Identificação Civil, em Alvalade, e frequentava o curso noturno na Faculdade de Farmácia. Eu era desenhador num atelier de arquitetura, na Praça de Espanha, tinha desistido do curso de medicina quando das greves estudantis do início da Revolução dos Cravos. Agora chegava quase sempre mais cedo a casa e fazia o jantar.

Nesse fim de tarde vinha com os sacos do supermercado quando entrei no prédio. Ia a pensar como organizar o jantar, que foi de salsichas com couve lombarda. Ela, a Maitê, estava à espera do elevador. Pensei em retroceder para evitar acompanhá-la, mas de imediato desisti desse ato de cobardia, e enfrentei. Boa tarde. Boa tarde, respondeu.

Os elevadores daqueles tempos eram muito lentos, parecia uma eternidade os 40 segundos que gastávamos para fazer a viagem do R/C ao nono andar. Tentei ser agradável. Obrigado por terem acabado com aquele ruído, disse-lhe. Não deites foguetes antes do tempo, respondeu ela com um ar muito sério, aonde se vislumbrava traços de vergonha. E prosseguiu. Se quiseres saber mais sobre esse assunto vai à morada que se encontra numa carta que estará na tua caixa do correio. Tratou-me por tu! Pensei um pouco despeitado. O meu namorado é ciumento, por isso não convém que nos veja a falar, acrescentou a beldade.

Fiquei intrigado. A partir desse dia precipitei-me para a caixa do correio sempre que chegava a casa. Porém nada aconteceu. Até que um dia, numa segunda-feira que regressávamos, eu e Luísa, de um fim-de-semana passado na casa dos meus pais, em Sesimbra, abrimos a caixa do correio e estava lá uma carta da EDP dirigida a um homem que não conhecíamos. A morada da carta era na Av. Almirante Reis 234 em Lisboa. Coisa estranha, disse Luísa, como é possível uma carta extraviar-se para tão longe do sítio para onde foi mandada!

Só eu sabia o porquê desse extravio! Mas não disse nada.

Fiquei triste por não puder ter comparecido ao encontro. No verso do envelope estava escrito a lápis 13H. Certamente seria a hora aprazada para o encontro.

Até ao fim dessa semana tudo se passou com normalidade. A Luísa saía comigo de manhã, apanhávamos o autocarro para o Marquês e lá íamos de metro para o emprego. Cada um para o seu.

Não consegui controlar a curiosidade. Fui à Almirante Reis conhecer a morada da carta extraviada. Era um café, com uma televisão pendurada na parede. Fui ao balcão e pedi uma bica a um homem que parecia ser o dono do estabelecimento. Ele disse alto para a empregada que estava junto da Cimbali; tira aí um café para este senhor. Ela respondeu sim, senhor Osório.

Osório Vicente era o nome do destinatário da tal carta! Não há dúvida que o encontro teria sido neste café, pensei.

No escritório do arquiteto andávamos em grande azáfama, pois o patrão tinha acabado de ganhar um trabalho com alguma envergadura; o aproveitamento do espaço da CP na Estação do Rossio, para nele fazerem um centro comercial.

Nessa época quase não havia centros comerciais e não havia computadores de desenho, tudo era feito em grandes estiradores, em papel vegetal, com compassos, réguas, esquadros e transferidores. O meu trabalho consistia em desenhar os tabiques que iriam separar as lojas, isto é, as divisórias, tendo o cuidado de adequar o traçado ao espaço entre pilares e balaustradas já existentes. Peças manuelinas, concebidas pelo arquiteto José Luís Monteiro e executadas por homens, canteiros de profissão, no século XIX. Todos verdadeiros artistas.

Anos mais tarde, quando visitei o resultado do meu trabalho, fiquei desiludido. Corredores muito estreitos, lojas que eram cubículos, como sempre acontece quando se quer meter o Rossio na Rua da Betesga. Num espaço tão nobre, construíram umas lojas tão foleiras, e eu ajudei!

Comecei a fazer horas extras para que o trabalho não se atrasasse. Fazia o possível por conjugar os meus horários com os da Luísa. Ela saía das aulas quase sempre às onze da noite e ia encontrar-se comigo nessa mesma estação do Rossio. Eu saía um pouco mais cedo para dar tempo a comprar o jantar na Rua Primeiro de Dezembro, e lá íamos os dois no comboio para a Reboleira, a cheirar a frango com batatas fritas…

Certo dia, chegámos a casa cerca da meia-noite, numa sexta-feira, passámos em frente à caixa do correio sem repararmos sequer na sua existência. Pelo menos foi isso que ela certamente pensou. Porém, eu olhei de soslaio e pensei que era melhor vir buscar o correio mais tarde. Não se desse o caso de lá ter sido posta mais uma carta extraviada.

Tenho a confessar que a Luísa foi o grande amor da minha vida. Não tenho pejo em afirmá-lo, até porque todas as namoradas que tive na minha vida, bem contadas, esgotam o número de dedos de uma mão. Ela foi a primeira, tínhamos 16 anos, e frequentávamos o mesmo liceu, na mesma turma. Fomos ambos virgens para o casamento, isto é, para o ajuntamento, porque casados ainda não eramos na data desta narrativa. Foi talvez isso que complicou a nossa relação / satisfação sexual. Porém confirmou-se, no meu caso, que não há amor como o primeiro.

Nessa época ela era muito alegre e comunicativa, ria-se por tudo e por nada, e quando se zangava nunca guardava rancor, não amuava, e não era vingativa. Tínhamos uma vida aprazível, se bem que muito apertada de finanças. O meu ordenado era para pagar a renda da casa, o dela era para pagar os transportes, comida, roupa. Ainda não tínhamos filhos.

Vou lá abaixo buscar o correio, disse-lhe. Menti quando regressei; só lá estava esta carta para pagarmos a água. Pus a carta encima da mesa da cozinha e fui direito à casa-de-banho, com a outra carta no bolso de trás das calças. Tinha que disfarçar a agitação que esta outra carta tinha lançado no meu comportamento… Fechei a porta à chave e observei com cuidado o envelope. Osório Vicente Av. Almirante Reis 234 Lisboa (ainda não havia Código Postal). No verso estava escrito a lápis sab17h. É amanhã às 5 da tarde. Respirei fundo e regressei à cozinha.

A agitação que este hipotético encontro provocava em mim, só de o pensar, transformou-se em enigma. Não era certamente a satisfação da curiosidade de saber o significado do ruido à meia-noite, que me punha em alvoroço. Também não era, juro, o vislumbre de um caso amoroso secreto com Manuela (mais tarde vim a saber que Maitê se chamava Manuela). O amor que sentia por Luísa fazia-me excluir à partida a possibilidade de me interessar por outra mulher. Então o que seria?

Encima da mesa da cozinha fui encontrar um belo frango assado, que me tinha sido vendido embrulhado num retângulo de papel vegetal que por sua vez foi embrulhado num bocado de papel pardo. Este último já tinha desaparecido de cima da mesa. O frango desafiava o meu apetite encima de um prato, sobre o papel vegetal. Quem havia de dizer que este papel servia tão bem a uma churrascaria quanto a um atelier de arquiteto, pensei.

Devorei o jantar, acompanhado por uma garrafa de litro de cerveja, daquelas garrafas que exigiam depósito de fiança. No fim do mês de salário, sabia bem ir devolver todas as garrafas e receber o valor dos depósitos. Era um dinheirinho que dava muito jeito.

Luísa contou que a professora da última hora tinha faltado à aula, e ela, Luísa, aproveitou para fazer uma marcha, indo a pé desde a Av. das Forças Armadas até ao Rossio. Senti-me mesmo bem! Exclamou. Quando uma pessoa está chateada não há como dar um grande passeio a pé. E estás chateada com o quê? Perguntei. Agora já não estou, já passou com o passeio. Mas houve algum problema, insisti. Já passou, respondeu. E continuou; amanhã é sábado, estou a pensar convidar a Sílvia e o marido para irmos passear a Sintra, lanchar um travesseiro com recheio de ovo e amêndoa. Eu não posso, respondi; o filho do arquiteto tinha um bilhete a mais para ir à bola. Deu-mo. Mas tu não costumas ir à bola, exclamou ela. Pois, mas se for de borla vou em qualquer excursão, nem que seja à Boca do Inferno, respondi a rir. E prossegui; eu vou à bola e tu podes ir aonde quiseres, não precisamos de andar sempre juntos como duas manas catatuas.

É assim. Na hora da verdade, quando quero, encontro sempre a desculpa adequada para me furtar às minhas obrigações. É um dom que desconhecia em mim. Só tive consciência dele quando comecei a viver com Luísa. Bem vistas as coisas, trata-se de produzir uma mentira bondosa. Se lhe tivesse dito a verdade ela ficava ansiosa a pensar no que poderia acontecer entre mim e Maitê. E não podia acontecer rigorosamente nada, mesmo que a Maitê fosse a mulher mais sexy do mundo. Pensava eu…

O café do Sr. Osório estava cheio e barulhento. Na televisão percebia-se que iam transmitir o Benfica contra um clube estrangeiro, para o campeonato da Europa. Dirigi-me ao balcão e pedi uma bica cheia, Sr. Osório, atrevi-me dizer. Ele fez-me um sorriso aberto, como se me conhecesse há muito tempo, e gritou; sai uma bica cheia para este senhor. Sim, senhor Osório, responderam do fim do balcão.

Já com a chávena na mão, senti uma pequena pressão no ombro direito. Sou eu, a Manuela. Também quero uma bica, disse. Não dá para nos sentarmos. Não faz mal, disse ela, vamos dar um passeio a pé. E lá fomos descendo em direção à Alameda.

Vou ser rápida. Eu sou a Manuela, o meu namorado é o António. Ribatejano, gosta de toiros e é fã do Benfica. As duas coisas que ele mais gosta é do Benfica e das suas botas de meio cano, decoradas a três cores, cozidas à mão. Vai para todo o lado com elas. Passa horas a engraxá-las ou a avivar as cores das aplicações laterais em couro. Trabalha no restaurante de um velho amigo do pai, o Festa Brava. Só trabalha a meio tempo, servindo à mesa, ao almoço. Por isso tem muito tempo para me dedicar. Dedicação que já me está a fartar, porque não me deixa trabalhar, e faz fitas sempre que saio sozinha ou com amigas. É ciumento, como já te contei. Além disso faz um biscate para o Jornal A Bola que consiste em redigir um comentário conciso de tudo o que aconteceu no Estádio da Luz, nos dias em que o Benfica joga lá. Tem bilhete à borla, e vai para o estádio uma hora antes do início do jogo. Quando sai do jogo vai para os copos com os amigos. Mais para tirar nabos da púcara, do que por prazer de conviver com eles. Chega a casa à meia-noite, executando de imediato o seu fetiche preferido, que consiste em descalçar as botas, sentado na nossa cama. Quando descalça a segunda bota, eleva-a a uns cinquenta centímetros do chão e deixa-a cair na vertical. Se a bota ficar direita é porque está tudo bem. Porém, se a bota tombar, é porque está algo errado, diz ele. Então, pega no par das botas e vai para a sala observá-las com toda a atenção, tentando encontrar o motivo que esteve na origem de a bota ter tombado. Ou é uma pastilha elástica agarrada à sola, ou um tacão descambado. Umas botas tão equilibradas não podem tombar de forma alguma! Afirma ele sempre que isso acontece.

O barulho de que te queixas é provocado pelo tacão a bater no chão do quarto. É um vício que ele tem. Conheço-o vai para três anos, e foi sempre assim. Vem do Estádio da Luz à meia-noite e descalça as botas sentado na cama. Depois deixa cair uma delas e fica todo contente se a bota não tomba. E já agora, como te chamas? Manuel, retorqui seco.

Tínhamos chegado à relva da Alameda e estávamos sentados no chão a ver os carros passar.

No princípio, pensei que aquilo era um exorcismo para exorcizar as derrotas do Benfica, mas depois percebi que não era nada dessa natureza. Amas mais as tuas botas do que me amas a mim, digo-lhe a miude. No princípio ele ria-se deste comentário, mas hoje, quando o ouve, fica triste e silencioso durante muito tempo, como se tivesse pena si próprio. Tenho que te confessar que estou farta da vida que levo com ele.

Esta última frase teve o condão de me acordar do torpor em que aquela história mal contada me tinha lançado. Olhei para ela com olhos de ver. Fiquei atónito como não tinha reparado desde o princípio na sua mini-saia (usava-se nesse ano) que deixava ver quase totalmente duas esplendidas pernas de mulher, a blusa de algodão fino, bordado, trazia-a sobre a pele, com quatro botões desabotoados, sem sutiã, deixando adivinhar dois mamilos firmes, cor de rosa. Tinha os cabelos desalinhados a preceito, e as sabrinas que calçava deixavam perceber um pé bonito e flexível.

Esta mulher veio aqui para me seduzir, pensei. E eu sou tão parvo que nem dei por isso!

Portanto, eu e minha mulher, estamos condenados a acordar à meia-noite, sobressaltados, todos os dias em que o Benfica jogar na Luz! Não está mal pensado, para começar.

Os seus lindos olhos verdes olharam-me de frente e marejaram-se de lágrimas. Tive pena dela.

Porque vives com esse gajo. Deixa-o antes que seja tarde, disse-lhe.

Ele bate-me. Não sei para onde ir. Quando me magoa muito, venho para a casa do Sr. Osório, que foi amigo do meu pai em Angola, na guerra. Ele deixa-me dormir lá em casa, no primeiro andar, uma ou duas noites. Depois manda-me embora. Tem pena de mim. Sem conhecer o António, sabe que ele não me deixa trabalhar, por ciúmes. Sabe que estou num beco sem saída.

Olha Manuela, não te vou dizer que tenho pena de ti, porque considero a pena um sentimento egoísta. Quando se encontra alguém em dificuldades não se deve ter pena, deve pergunta-se; em que posso ajudar-te? É isso que te pergunto; em que posso ser-te útil, na tua adversidade?

Não sei, respondeu. Ou antes, sei! Peço-te que não voltes a subir ao meu apartamento como subiste naquele dia. Perdoa-me os barulhos e esquece que eu existo. É porque vai haver barulhos futuros, pensei.

Enquanto dizia isto, ela apertava os lábios num misto de desespero e raiva.

Nem eu nem ela esboçamos um gesto de aproximação física. Uma festa, ou outro gesto de carinho. Se o pensámos, ficou o tinteiro. Levantámo-nos, e foi cada um para seu lado.

Eram seis e meia da tarde, a noite aproximava-se naquele outono seco e luminoso. Aconselhado pela memória do dia anterior, segui os conselhos de Luísa; andar é o melhor remédio para a neura. Fui a pé para o Rossio.

Arranjei lugar sentado no comboio. Apoiei-me na janela e fechei os olhos, revendo os acontecimentos daquela estranha tarde. Vou ter que arranjar maneira de convencer a Luísa a perdoar os ruídos da meia-noite. Ou então compro o jornal A Bola todas as semanas para saber quando o Benfica joga na Luz e nessas noites convido-a para a uma ida ao cinema, pensei.

Cheguei a casa às 8 horas. Ela já estava, e perguntou de rajada; então o Benfica, lá ganhou outra vez. Fiquei sem pinga de sangue. Como sabia ela que o bilhete à borla era para ver o Benfica? Ela percebeu a interrogação no meu olhar e respondeu; filho de peixe sabe nadar, um pai arquiteto benfiquista só pode ter um filho benfiquista.

Há coisas que parecem bruxedo. Inventei uma desculpa relacionada com futebol que não podia estar mais relacionada com o que fiz durante toda a tarde. E não fui ver o Benfica… soube do resultado pelas conversas que ouvi no comboio.

Na terça feira seguinte, quando desci do autocarro no Marquês de Pombal, separei-me de Luísa e fui comprar o jornal A Bola, que saía à terça com todas as novidades do fim-de-semana. Cheguei ao escritório um quarto de hora antes das nove. Tive tempo para procurar todos os artigos que descrevessem o que se passou no Estádio da Luz. Muitos artigos identificavam o autor e tinham uma foto da cara dele em miniatura, dentro de uma pequena moldura circular. Cá está ele! Pensei quando vi a cara de António. Com que então tens o pseudónimo de António Luz! Não está mal pensado para um benfiquista ferrenho. Não li o artigo. Deixei o jornal encima de um estirador. Decidi que não o levaria para casa. Já sabia tudo o que queria, isto é, sabia também que o Benfica jogaria na Luz no próximo domingo.

Foi então que fiz uma maldade à minha mulher. Fui à mala dela buscar o porta chaves, retirei a chavezinha do correio, atirei-a para o fundo da mala e coloquei tudo como tinha encontrado. O fundo de uma mala de senhora é como o fundo de um poço. Quando se esvazia o poço, encontram-se coisas que muito procuramos e não encontrámos. A partir desse dia fiquei mais descansado quanto à possibilidade de ela ir ao correio antes de mim.

No sábado seguinte, mesmo sabendo que não havia distribuição de correio, abri a caixa e espreitei. Para meu espanto estava lá uma carta da EDP igual às outras, com a diferença que desta vez o sobescrito estava aberto, como se alguém tivesse descolado a cola, e, ainda por cima, tinha lá dentro um bilhete de ingresso no jogo de domingo, no Estádio da Luz. No verso do subscrito estava, a lápis, D15H. Este código já eu sabia o que significava. Mas fiquei baralhado, pensando que tanto podia marcar um encontro no Estádio como um encontro no café da Almirante Reis. Tive que mentir outra vez à Luísa! Disse-lhe que um desenhador do atelier me tinha dado o bilhete, porque a mulher ia ter bebé no domingo.

Luísa só respondeu; andas a ir muitas vezes ao futebol. Nem por isso, a última vez foi há um mês atrás, respondi.

O sexto sentido das mulheres é assustador! Leiam só a próxima.

No domingo declarei lá em casa que era eu quem fazia o almoço, e seria o almoço preferido de Luísa; arroz à valenciana. Declarei ainda que se tratava de um prato lógico para fazer ao domingo, devido ao trabalho que dá quando se pretende que fique bem feito. Resposta dela; com papas e bolos se enganam os tolos.

Não tinha engolido a peta do bilhete para o Benfica… já não havia nada a fazer. Em frente é o caminho, seja o que deus quiser. Não estou a fazer nada de mal, disse para mim próprio, sem grande convicção.

Depois do almoço lavei a loiça sequei-a a arrumei nos armários. Varri a cozinha e fui deitar o lixo no contentor. Luísa não fez comentários. Era óbvio que me sentia culpado. Culpado de fazer algo que não podia ser considerado errado, pensei. Ou talvez não!

De repente senti que estava a dirigir-me para um precipício. Meti travões a fundo.

Luísa, não queres vir a Sintra? Lanchamos um travesseiro, com doce de ovos e amêndoa. Só nós dois. Nem precisamos de ir de carro com a Silvia, vamos de comboio, e lá vamos a pé para todo o lado. Andar a pé é bom para espantar fantasmas.

(continua)

Bia da Floresta tp1 ep5 – Voando sobre as árvores

Buzz é um bombeiro simpático e gosta muito de crianças. Por isso sugeriu a Bia que fossem procurar Huguinho voando sobre as árvores.

Quero, quero, quero! Disse Bia. E saltou para cima da asa direita do mini-avião de Buzz.

Levantaram voo e viajaram por cima das árvores da floresta até que chegaram a um prado. Aí foi fácil de ver Huguinho deitado da relva a aquecer ao sol da manhã.

É ele, é ele!, gritou Bia. Ó Buzz, desce!, aterra ali! por favor!

Buzz percebeu que tinham atingido o objetivo de resgatar o porquinho Hugo, e pousou na relva.

Huguinho reconheceu logo a dona, e correu a abraçá-la. Eu vou contigo, eu vou contigo, disse o porquinho.

Buzz ficou com cara de preocupado, pois não sabia se o motor de seu mini-avião tinha força para levantar voo com 2 passageiros; a Bia e o Hugo. Mas disse: Vamos tentar.

Bia saltou para a asa esquerda e Hugo pôs-se da asa direita, e puseram os cintos de segurança. Depois Buzz carregou com força no acelerador (os mini-aviões também têm acelerador) e o motor começou a roncar; vvvrruuuuummm com toda a força, e lá subiram para o céu. Afinal o meu mini-avião é mais potente do que eu pensava… pensou Buzz.

Voavam rente à copa das árvores, pois o motor não tinha força para os fazer voar mais alto.

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Bia da Floresta tp1 ep4 – O bombeiro voador

bia tp1 ep4

Bia não necessitou de subir à árvore, pois houve um fruto maduro que caiu mesmo os seus pés. Afinal os frutos não eram tão grandes como pareciam, pensou ela, deu-lhe logo uma dentada. De facto parecia um tomate e sabia a tomate. Que bom, disse ela, e logo eu que gosto tanto deste fruto…

Foi quando começou a ouvir um barulho parecido com um motor.

Olhou para o céu e foi com espanto que viu um homem a voar! Bia começou a fazer-lhe adeus com os dois braços, e o objeto voador começou a falar lá de cima do céu; “Alô, és a menina Bia, filha da dona Mariluz?”

Sou sim, respondeu Bia, e o senhor quem é?

Sou Buzz, o Bombeiro Voador. E Buzz pousou na clareira da floresta mesmo ao lado de Bia. E disse:

A tua mãe e o teu pai estão muito preocupados por estares perdida na floresta e por teres dormido a noite fora de casa, andam por esses caminhos à tua procura.

Ontem telefonaram aos bombeiros da vila e pediram para te procurarem, mas durante a noite nem os helicópteros nem os homens voadores estão autorizados a voar. Por isso só hoje de manhã me pus a caminho. Vim buscar-te para regressares a casa.

Eu não saio daqui sem levar o Huguinho, disse Bia, já a fazer beicinho, como quem quer chorar. Ele também está perdido na floresta e eu só volto para casa na sua companhia.

Bia da floresta tp1 ep3 – A árvore gigante

bia tp1 ep3

No dia seguinte Bia acordou com o som estridente dos pássaros. Estava um dia de sol brilhante e os pássaros voavam como loucos de ramo em ramo.

Bia espreguiçou-se feliz e pensou que tinha acordado na Aldeia do Couço, a terra dos avós. Mas ficou muito espantada quando viu que estava debaixo de uma árvore enorme, que ela não conhecia, e que tinha uns frutos vermelhos,  pareciam tomates enormes.

Lembrou-se então da noite anterior, e procurou à sua volta a cabrinha Salomé. Chamou; Salomé, Salomé.

Salomé não estava. Bia pensou que talvez tivesse ido dar de mamar aos dois cabritos seus filhos, que não comiam nada desde a véspera… não faz mal, pensou, procuro o Hugo sozinha.

Que fome que tenho !. Eu também não como desde ontem. Vou tentar subir à árvore, colher um fruto daqueles. Devem ser deliciosos…

 

Bia da floresta tp1 ep2

bia tp1 ep2

Bia corria para apanhar huguinho. A correria foi tanta que tropeçou e caiu. E pôs-se a chorar porque lhe doia o joelho.
Ai! Ai! Eu quero a minha mãe!
A cabrinha Salomé, que andava por ali a pastar, correu em auxílio. Disse-lhe: não chores mais que eu ensino-te o caminho de casa.
NÃO,  gritou Bia, não saio daqui enquanto não encontrar o Huguinho.
Entretanto fez-se noite e Salomé disse: está tão escuro que já não sei voltar a casa. O melhor é fazermos uma lareira para nos aquecermos e dormimos mesmo aqui.
Bia estava muito cansada e a respiração da cabrinha aquecia-a. Adormeceram as duas…