Um cão não é uma bicicleta…

Certo dia, na minha aldeia, houve grande reboliço; um homem que guardava a sua bicicleta no quintal, descobriu que o vizinho da frente a utilizara, sem autorização, para fazer a “Corrida da Primavera” – acontecimento cultural organizado todos os anos pela Câmara Municipal -.

Tinha saltado o muro e trazido a bicicleta para a rua. Participou na corrida, e depois foi pô-la no mesmo sítio, para que o dono não desse por nada.

Mas o dono deu pela marosca! é que a bicicleta estava toda riscada e tinha um pneu furado!

Após algumas averiguações não foi difícil descobrir o infrator…

Muito zangado, o dono da bicicleta fez queixa na GNR e o caso chegou a tribunal.

O Juiz interrogou o réu e o acusador e emitiu uma douta sentença: “O réu é condenado a pagar a reparação da bicicleta e mais 500 euros de indemnização ao acusador”.

No dia seguinte, o dono da bicicleta, feliz por ter ganho a ação e mais 500 euros, adotou um cão de guarda, e pô-lo a vigiar o quintal. Chamou-lhe Fiel.

Na quinta-feira, dia de ir à caça, o caçador da aldeia passou frente ao quintal montado na sua motorizada e com a espingarda à tiracol.

O cão Fiel, que era mais de caça do que de guarda, ao ver o caçador passar, saltou o muro do quintal e seguiu o caçador até à Quinta da Marquesa (tudo isto se passa em Azeitão).

A caçada correu de feição e, ao fim do dia, caçador e cão regressaram cada um para seu lar.

O dono da bicicleta ficou furioso por ver seu cão cansado e com o pelo sujo das estevas, e foi à casa do caçador travar-se de razões com o ele; o senhor não tem o direito de caçar com esse cão. Esse cão é meu. Se isso voltar a acontecer faço queixa de si!

O caçador defendeu-se como pode, dizendo que não fora sua intenção usar cão alheio naquela quinta-feira. É que o Fiel gosta de caçar, e seguiu-me até a Quinta da Marquesa, disse-lhe. É um belo cão de caça! Mas fique descansado que para a próxima eu mando-o de volta para o quintal.

No domingo seguinte, dia de caça, o cão voltou a saltar o muro. O caçador parou a motorizada e disse-lhe Xô!, vai pra casa! Mas o cão não fez caso. E lá foram os dois de novo para a Quinta da Marquesa. Tudo se repetiu como na quinta-feira anterior.

O dono do cão (e da bicicleta), furioso com a repetição da cena, fez queixa na GNR (no fundo, a sua mente fugia-lhe para os 500 euros). O caso chegou a tribunal.

O juiz, depois de ouvir ambos emitiu de novo uma douta sentença; “O caçador é absolvido, o dono do cão fica obrigado a prendê-lo dentro do quintal, nos dias de caça.”

Ó Dr. Juiz, há cerca de um mês o senhor condenou um homem que usou indevidamente a minha bicicleta e agora absolve um homem que usou indevidamente o meu cão, exclamou o ofendido. Que raio de justiça é a sua?

O juiz explicou: “é que um cão não é a mesma coisa que uma bicicleta”.

 

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